Refugiados de Fukushima sofrem preconceito no resto do Japão

Ex-moradores de região da usina têm de provar que não estão contaminados por radiação

AFP
Jiji Press/09.04.2011/AFPJiji Press/09.04.2011/AFP

Casal removido da região de Fukushima observa a vista de sua janela no hotel Grande Prince Akasaka, um dos mais luxuosos de Tóquio, que abriga sobreviventes do tsunami desde que fechou para reformas.

Moradores que fugiram das imediações da central nuclear de Fukushima, no nordeste do Japão, vêm sendo recusados por abrigos comunitários e centros de ajuda, pelo temor de que estejam contaminados pela radiação e possam prejudicar outras pessoas.

Pessoas que tiveram que deixar suas casas em razão da crise nuclear perto da central de Fukushima precisam de um certificado oficial provando que não estão contaminadas para que possam entrar nos centros de acolhida de desabrigados no resto do país.

Os equipamentos de detecção de radiação instalados na entrada dos locais tornaram-se postos de controle que dão acesso a um lugar para dormir ou mesmo para que recebam cuidados médicos, mesmo que os especialistas afirmem que as pessoas que deixaram as áreas afetadas não representam risco algum para as outras.

Em entrevista à agência de notícias France Presse, o representante do departamento médico da prefeitura de Fukushima, Kosuke Yamagishi, explicou que a preocupação do público em geral tem levado a atitudes discriminatórias no restante do Japão.

– A menos que não sejam funcionários da central, as pessoas comuns não são perigosas. As pessoas estão simplesmente muito preocupadas e, infelizmente, isso pode levá-las a uma discriminação.

Contudo os responsáveis pelos centros de refugiados mantêm suas instruções. Todas as pessoas que moram em um raio de 30 km em torno da usina “devem apresentar um certificado”, afirmou uma fonte que não quis se identificar.

Hospital recusou garota de oito anos

Uma menina de oito anos originária de Minamisoma, localidade situada a 20 km das instalações atômicas, foi recusada por um hospital da cidade de Fukushima porque ela não tinha certificado de não radioatividade, informou o jornal local Mainichi.

Kenji Sasahara, que dirige um centro de detecção em Minamisoma, afirmou que muitas pessoas que deixaram o local sentiram-se ofendidas por terem que apresentar um certificado de saúde.

– Das mais de 17 mil pessoas examinadas, nenhuma representava risco, a não ser três funcionários da usina. As pessoas estão furiosas. Minamisoma tem agora a imagem de uma cidade contaminada.

O episódio reavivou as lembranças de preconceito sofridas pelos “hibakusha” [os sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki]. Muitos dos sobreviventes foram discriminados por causa do medo de que contaminassem outras pessoas com os efeitos da radioatividade a que foram expostos.

Governo japonês aumenta área de segurança em torno da usina

Até agora há informações de que dezenas de milhares de pessoas foram obrigadas a deixar uma área de 20 km em torno das usinas de Fukushima ou a se confinarem em suas casas em uma área de mais 10 km.

O governo japonês elevou na terça-feira (12) de 5 para 7 (grau máximo) o nível de gravidade do acidente de Fukushima. As autoridades japonesas também acrescentaram cinco localidades no plano de retirada, incluindo algumas situadas além dos 30 km inicialmente recomendados.

Um assessor do governo do primeiro-ministro Naoto Kan, Kenichi Matsumoto, declarou à imprensa que a região em torno da central de Fukushima poderá permanecer inabitável durante “dez ou 20 anos”.

A desconfiança se estende mesmo para além da região. Uma moradora da prefeitura de Fukushima escreveu em seu blog que um hotel da prefeitura de Saitama, ao norte de Tóquio, tinha se recusado a receber ela e sua família.

– Mesmo quando eu expliquei que não vínhamos de uma área de remoção, o recepcionista do hotel respondeu: “vocês não podem ficar aqui se vocês não têm provas de que não são hibakusha”.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s