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Marcelo Crivella lastima morte de amigo em fogo cruzado

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Marcelo Crivella

No último sábado à noite, policiais subiram o Morro da Mangueira trocando tiros com o tráfico local. Uma bala de fuzil matou Roberto Santana de Araujo, um jovem de 27 anos, que estava dentro de casa se despedindo da noiva para ir a uma vigília na igreja. Eram quase 10 horas da noite. Mais uma bala perdida. Mais uma vida ceifada.
Esse jovem humilde, trabalhador, pacato e ordeiro, bom filho, bom irmão, bom amigo, coração sem ódios e conduta exemplar, enfrentava com grandeza a mediocridade do seu tempo. Com uma vontade inflexível, decidia com firmeza e construía com bravura cada etapa da sua existência, forjada nos princípios da dignidade, do amor ao trabalho, da devoção à família, do cristianismo autêntico e da força imbatível, pura e radiante, da sua fé em Deus.
Seu sangue inocente, derramado em vão, clama aos céus, mas clama também aos homens de boa vontade. Até quando teremos que suportar essa escalada da violência? Esse fogo cruzado em áreas densamente povoadas que põe em risco milhares de trabalhadores e suas famílias e faz do princípio constitucional da inviolabiliadade do lar um ridículo e cínico deboche, um escárnio satânico, o mais aviltado e corrompido dos direitos. Que todos tenham ódio e nojo do tráfico de cocaína, de maconha e de crack, pelo rio de sangue que desce dos morros, por tantos jovens lançados na sepultura com os corpos mutilados e ensanguentados, enquanto outros são despejados como lixo em presídios medievais onde são barbarizados e vegetam numa existência desgraçada; por tantas vidas perdidas; pelo comércio maldito que divide pobres em facções e põe irmãos contra irmãos numa guerra monstruosa, inútil e miserável. Sim, por tudo isso, se compreende nossa revolta.
Mas não é com mais violência, ou monstrificando a força policial no ímpeto da marcha da insensatez que vamos vencer essa guerra. Não se pode dizer de onde veio o disparo.
A perícia irá provar. Mas o fato de causar tiroteios onde residem pessoas, precisa ser avaliado.
Melhor seriam as operações de inteligência, como aquela que prendeu o assassino de Tim Lopes sem disparar um tiro. Melhor é a repressão à lavagem desse dinheiro sujo, pressuposto vital para a lucratividade e continuidade do negócio. O controle das fronteiras por onde hoje passa tamanha quantidade de armas e drogas que se constitui na mais acintosa e insolente afronta à honradez da nossa soberania. É lá, nas fronteiras brasileiras, que se combate o tráfico no atacado e se prendem os tubarões que organizam, financiam e distribuem em grandes quantidades armas, munições e drogas. Nas comunidades está o varejo, o peixe pequeno.
E que não se diga que a Polícia Federal não possui efetivo para dar conta dessa missão, porque por essa razão aprovei lei já sancionada pelo Presidente da República, portanto em pleno vigor, que confere poder de polícia às Forças Armadas nas fronteiras terrestre, aérea e marítima, para o combate às drogas e armas.
No clima de guerra em que vivemos no Rio é preciso alertar que os espíritos violentos costumam cair na mesma intransigência dos fanáticos que norteam-se cegos e determinados pelos esquemas ditados pela própria arrogância e se torrnam energúmenos completamente blindados aos apêlos da razão.
Criminalidade se combate sempre com inteligência, às vezes com a força bruta, mas nunca com chacais que uivam famintos de ódio e sedentos de sangue. Como aqueles que, a soldo de terceiros, recebem autorização para uma saída do presídio para cometer crimes bárbaros e voltar acobertados pelo álibe, com a presunção da impunidade.
Paulo Roberto, me disseram seus pais, andava muito feliz. Tinha adquirido uma autonomia de táxi para não ter mais que pagar diárias na cooperativa, onde exercia o cargo de Diretor de Ética, respeitado e estimado por todos. Deixou com sua mãe uma frase lapidar, de rara sabedoria, que sintetiza sua visão de mundo e nos deixa uma lição inesquecível: “Quem fala mal do sacrifíco, fala mal de Jesus.”
Era assim que encontrava forças para lutar e com renúncia e idealismo forjar o futuro. Pessoas como ele não morrem. Não se apagam no esquecimento. O rastro de sangue que deixou do Morro da Mangueira até o Hospital do Exército, onde veio a falecer, será para sempre um clamor de justiça daqueles que no anonimato de uma vida humilde, superando adversidades, injustiças e preconceitos, sonharam, sofreram, lutaram e tombaram para construir sem violência um mundo melhor. Que Deus o tenha e o guarde por nós que não soubemos guardá-lo.

Publicado no Jornal do Brasil, 06/06/2009

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