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Saudosos La Fontaine e Monteiro Lobato!

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As Raposas e o Sol
*Raymundo Araujo Filho

Quando eu era criança (bons tempos aqueles) me deliciava com as fábulas de La Fontaine, o maior fabulista de todos os tempos, a nós oferecidas e traduzidas pelo maior escritor infanto juvenil do mundo, Monteiro Lobato.
Duas das que eu mais gostava eram a Raposa e as Uvas e aquela em que o Corvo, de tanto ouvir elogios ao seu “belo canto” foi fazer um solo vocal e deixou cair o pedaço de queijo tão almejado por aquele que o elogiava tão insistente e mentirosamente.
Não me cansava, primeiro de ouvir e depois de ler em livros com belíssimas ilustrações, a fábula da raposa que, sem poder alcançar as uvas que muito lhe apeteciam, vivia a desdenhá-las dizendo-as ainda verdes, gerando o famoso ditado “quem desdenha quer comprar”.
Hoje, os tempos e as fábulas são outras e, infelizmente, não sou mais aquela criança criada no Leblon e no Méier com extrema liberdade de ação, em uma cidade ainda não deteriorada, suja, injusta e ameaçadora como é, hoje, o nosso Rio.
As fábulas de nossos modernos tempos e que não posso fugir de tomar conhecimento são outras. Não mais envolvem simples postulados morais e éticos como as de outrora. Envolvem sim, interesses (bi)milionários e questões que dizem respeito à própria segurança nacional e defesa de nossas riquezas e soberania.
Refiro-me ao episódio da recente demarcação de forma contínua das terras dos índios Yanomãnis, a reserva Raposa do Sol, lá no extremo norte brasileiro, na ainda fronteira entre o Brasil e a Venezuela, no Amapá.
De um lado, a etnia Yanomãni, depositários legítimos de nossa memória ancestral e credores incontestáveis de terras para a sobrevivência dos seus filhos e desenvolvimento de sua cultura nômade, que necessita de vasto território para afirmação cultural e bem estar de seus membros.
Do outro, a “civilização” que, sob a cumplicidade dos poderosos de nosso país, foram invadindo, corrompendo, irrompendo em território alheio, estabelecendo suas culturas agropecuárias e sociais predatórias, exterminando sem piedade um elo poderoso, porém desprotegido, que são os Yanomãni.
Muitos destes novos colonizadores do Eldorado Brasileiro, lá estão hoje em
posição de franca alienação frente ao mal que produziram e produzem a um povo que é patrimônio da humanidade e ao santuário ambiental, quais sejam os índios Yanomãnis e a Savana Brasileira. Agem como se fossem Inocentes Assassinos.
E, como a raposa da fábula, sempre desdenhando do local dizendo “ali só dá para plantar arroz e criar gado”. Sobre as riquezas minerais da região, nem um pio.
Ao contrário desta ignomínia de facínoras, o cenário é de intensas riquezas naturais. Dentro do arco de personagens envolvidos na questão temos aqueles diretamente interessados e aqueles cujos interesses são inconfessáveis, por estarem a serviço da exploração irracional da natureza e do homem pelo homem.
Índios, colonos, testas de ferro, paus mandados, paus de arara, poder político, poder econômico, governos e ongs. Tênues fronteiras entre a vida proba e a corrupção. Entre desenvolvimento sustentado e destruição. Entre interesses legítimos e ilegítimos. Entre os fortes e os fracos.
Assim, como produto de uma discussão desfocada e de pouca profundidade, como os falsos elogios aos acordes vocais do corvo da fábula, consolidaram-se como as únicas duas opções possíveis para o conflito, a calça de veludo ou a bunda de fora, ou melhor, a completa demarcação das terras indígenas de forma contínua com a Venezuela ou o retalhamento das áreas indígenas e a morte da etnia ancestral, em pouco tempo.
A primeira opção foi engendrada por um acordo bilateral supervisionado pelo Tio Sam, que reuniu dois ex-presidentes, um do Brasil e outro da Venezuela, os dois com direitos políticos suspensos atualmente e protagonistas de espetáculos de corrupção explícita. A segunda é defendida pelos que lá se estabeleceram como plantadores de arroz e criadores de gado. As duas opções apenas servem, entretanto, aos donos do poder econômico, de olho nas riquezas minerais e genéticas imensuráveis da região e que apostam na polarização destas duas propostas, como se nada melhor pudesse ser imaginado.
Ora, se as duas propostas servem ao mesmo grupo, é óbvio que deve haver uma outra proposição que preserve a etnia Yanomãni e, ao mesmo tempo, impeça uma possível futura constituição de uma nação indígena autônoma entre os dois países, nova proprietária e com os direitos de negociação de todas aquelas riquezas. E a ONU está aí mesmo para legalizar tal absurdo. E não há inocentes neste jogo. A não ser alguns bobos alegres urbanos que, há milhares de quilômetros de distância, fingem poder resolver tão complicado problema, sempre municiados com verbas e pela mídia comprometida com os piores interesses.
A terceira opção existe, porém propositadamente não foi discutida. Esta consiste, primeiramente, na realocação em outras áreas de todos aqueles que para lá foram conquistar um novo Eldorado, às custas da degradação ambiental e da etnia Yanomãni. Depois a demarcação da área entre os dois países como uma reserva indígena única, porém com uma faixa de 50 Km de largura em toda a fronteira para que fique a cargo da fiscalização do Exército Brasileiro, incumbido de apenas permitir a presença segura dos membros da etnia Yanomãni, com livre trânsito fronteiriço, desde que nada carreguem das riquezas minerais do subsolo e de matrizes genéticas animais ou vegetais, para lá ou para cá, de forma comercial unilateral com a sociedade brasileira. Esta atividade continuaria como prerrogativa soberana do Governo Brasileiro e com justa remuneração percentual para os Yanomãnis, como reparo histórico.
Mas, lamentavelmente, o Governo do Presidente Lula, com a sua tsunâmica falta de percepção do óbvio, optou pela demarcação contínua, sem salvaguardas, talvez para premiar a fartamente derrotada Ministra Marina Silva, que a defendia dentro de sua visão essencialmente de falsa ingênua e não racional, que lhe é peculiar.
E fica o Sen. Sibá Machado (PT-AC) a fazer discursos no Senado, dizendo que nada temos a temer, pois o subsolo da região pertence à nação brasileira, como reza a Constituição. Como se bandidos ou interesses internacionais poderosos respeitassem a Constituição de países, principalmente daqueles com dirigentes políticos frouxos e aliados a corruptos de longa data e execração pública. Vide a entrega do Petróleo brasileiro para estrangeiros, com o apoio do STF, ao arrepio da Lei.
Portanto, sem me alinhar com os predadores e representants de interesses internacionais, julgo que as duas medidas que mencionei acima, poderia apaziguar o confronto. A Demarcação com Faixa de Fronteira, e a Não Comercialização Unilateral das Riquezas Naturais.
Saudosos La Fontaine e Monteiro Lobato!

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